quarta-feira, 29 de julho de 2026

Quando faltam as palavras

A gente, tem horas, desenterra palavras aterradas no peito e põe a solitude no cálice do vazio existencial. Escutar, às vezes, é acampar a voz que chega sem fala, e o corpo vai e clama, pedindo abrigo. Eis o pertencimento: ele comunica o amor no lugar da dor. Exatamente por ser luz acesa em si própria e por iluminar quem brilha sincronizado na paz do aqui e agora. 

domingo, 28 de junho de 2026

Vamos falar sobre emoções?

A vida é uma espiral de eventos e ideias que desencadeiam vários tipos de emoções com ou sem uma tomada de consciência, a qual pode afetar nossa percepção do mundo e/ou ser o embrião da autoconsciência.



E é aí que reside o autocuidado no cerne da escuta – que a atenção voltada para esta emoção, agora identificada, fica pronta para o manejo escolhido. 

Sim, somos todos emocionados e responsáveis pelas nossas escolhas a partir dessa tomada de consciência.


Talvez você se pergunte: ok, porém, como detectar a raiva sem explodi-la, ou reconhecer a tristeza sem julgá-la? Como conduzir essas e quaisquer outras emoções sem reprimi-las?


Eu poderia dizer: primeiro você as localiza dentro de si; depois você as observa; e, por fim, trabalha nelas. Mas não existe uma receita de bolo para tanto...

Fica complicado adaptar-se de um segundo para o outro dependendo do sofrimento psíquico envolvido.


Quando nos propomos a escutar as emoções, às vezes, é preciso desentupir os ouvidos da nossa percepção para escutarmos o som delas sem prejuízo ao longo do processo.


Assim, se em circunstâncias tais procuramos um otorrino quando não conseguimos ouvir música, por exemplo, podemos recorrer a uma psicóloga/um psicólogo para lidarmos com nossas angústias até desentupi-las e quem sabe ouvi-las como nunca antes.


Pois não mais sozinhos, agora acompanhados, somos capazes de filtrar o que, como, por que e para que escutamos o que escutamos e encontrar novos significados para palavras antigas, além de não nos justificarmos ao assumir a responsabilidade por nós mesmos.


Podemos escolher romper com os vínculos disfuncionais que deixaram marcas como feridas em nós por meio dos velhos ciclos...

E a partir daí, não mais sozinhos, mas imbuídos nessa evolução em busca do nosso eu real e não idealizado respirarmos aliviados para sermos quem somos de fato.

Pois, embora vulneráveis, somos potentes (e até resilientes), porque ao reconhecermos que precisamos de cuidado damos um passo rumo ao bem-estar e demonstramos coragem aliada ao amor próprio que há em nós.


Talvez esta seja a razão do meu papel de psicoterapeuta: compreender pela escuta ética, empática e técnica que é no encontro com o outro que nos conectamos com a saúde em nós, às vezes, desconhecida ou até esquecida. Desse modo, o bem-estar do paciente me inspira.


🌻

Márcia Filha 

domingo, 14 de junho de 2026

Ensaio sobre a empatia

Uma coisa é subir o sarrafo das nossas relações, outra coisa é esperar a evolução do outro medida pela sua.


O encontro genuíno não é uma permuta ou uma reles troca, na maioria das vezes, ele é um achado muito potente.

Como se o espaço vago no interior de cada um fosse inundado pela dádiva da entrada e saída fluída desse combinado.

É o florescer da empatia alimentada pelos envolvidos; é o contato consciente de quem está presente.

Encontrar-se neste próximo é também se reconhecer como agente de mudança, nesse outro e em si próprio...

É mais do que ser uma pessoa diplomática, é escolher colocar a escuta no centro com responsabilidade afetiva;

É não se fechar na liberdade aberta sem pensar naquilo que pode blindá-la; é fazer escolhas, ser livre e responsável.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Travessia

O Natal evoca a comunhão. O ano novo o recomeço. E tudo isto é plantado entre janeiro e dezembro. É no intervalo entre eles que acontece a vida.

O ano presente é construído no passar dos dias. Cada um deles é folheado pela gente mesmo sem enxergá-los. Você está ali. Como eu estou/estive. Dentro das atitudes, falas, pausas, dos negócios assim como do ócio, em meio às escolhas conscientes e inconscientes – lá está você. Ocupando um espaço e tempo só seu, socializando conforme sua frequência afetiva ou só cumprindo o seu papel.

Às vezes, pouco se leva da lacuna entre o primeiro e o último mês... Às vezes, muita coisa ecoa delas e talvez não basta apenas enxergá-las ou mesmo senti-las, é preciso reconhecê-las como ferramentas ou recursos.

Na travessia que fiz do meu janeiro até o meu dezembro, por exemplo, fui presenteada com lições valiosas: eu sou minha prioridade – meu cuidado com o outro vem desse autocuidado; e uma rede começa por um laço inclusive as de apoio. É exatamente isto que te desejo: cuidado, apoio e colo.

Boas festas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Eu vejo vocês

Dia das (os) professoras (es) é uma data para honrar a memória de quem nos ensinou e ensina, mas também para pensar modos de coconstruir uma nova história a esta gente tão aplicada.


Imagino não ser fácil transmitir uma ideia (um conteúdo) e gerar condições para ela ser aprendida por alunos bem diferentes mesmo em salas 'iguais'.

Deduzo ser gratificante o retorno da dedicação e do afeto fruto de muito trabalho. Sei que, às vezes, é uma profissão quase impossível e sem a visibilidade indispensável.

Então, deparo-me com vários sentimentos cheios de camadas e poucas palavras aqui dentro. Ainda assim quero dizer: eu vejo vocês!

Percebi e percebo em cada educadora (or), cujo privilégio eu tive de aprender direta ou indiretamente com elas (es), a qualificação – além da profissional – essencial para manter-se firme nesta jornada, quase sempre, desassistida.

Quero agradecer, sim, por seguirem em frente e desejar uma vida boa (generosa, confortável, segura e saudável) além de recursos destinados a educação continuada, com uma carga horária justa, melhores salários;

E políticas públicas vigentes em prol da qualidade de vida e bem estar individual e coletivo no bojo da vida escolar/acadêmica de cada uma (um) de vocês.

Feliz dia!

A todas professoras e professores,

Com afeto

Márcia Filha 

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Falar

Um dia aprendi que o ato de escutar se aperfeiçoa com o exercício da empatia. Pois encontro no desabafo os resíduos das marcas de uma vida e junto deles os recursos para retribuir a confiança depositada.


Dialogar, já diria o clichê, é "uma ponte nunca um muro". O bom diálogo me constitui e não me isola. Talvez seja aí que começa a escuta: no volume que dou a voz cuja fala permito falar onde – naquela hora – ouço e escuto.

O que sei é que falar atavia a alma com as palavras arranjadas nas conexões que faço comigo, contigo, com a natureza sua flora e sua fauna; no encontro com quem saúdo e oro – quem sagrado me consagra e devolve minha humanidade.
 
É como se ao falar eu andasse até as vírgulas que encantoam uma sentença antes da outra, espalhando os termos a priori nelas e agora fora. Então, me mostro atenta quando acolho sua fala, alheia quando a descontextualizo e integrada quando a assimilo.

Eu falo com as palavras que ponho no silêncio para te ouvir e falo outras palavras quando seu silêncio surge para também me ouvir. Falar é saber que as palavras chovem e as frases escorregam para gente se esvaziar e se encher de versos até contraditórios, mas emancipatórios.







Quando faltam as palavras

A gente, tem horas, desenterra palavras aterradas no peito e põe a solitude no cálice do vazio existencial. Escutar, às vezes, é acampar a v...